A Janela
Pela janela do meu quarto vê-se a relva acabada de cortar do jardim da minha casa, vê-se o mar, a areia, o sol. Tudo o que é possível de se imaginar.
Quando eu era pequenina, por volta dos meus três ou quatro anos, ficava de noite, sentada à janela, a ouvir o leve ruído do mar, a saborear o cheirinho a maresia e a sentir o vento nas orelhas, até o sono chegar. E, por muitas e muitas vezes, adormecia no peitoril de granito da janela. A cortina cor-de-rosa voava sobre mim e protegia-me do vento gelado que pudesse chegar.
De manhã, abria a cortina e via as dunas. Lá muito longe conseguia ver o mar a enrolar na areia branca e as ondas a bater freneticamente nos rochedos da praia. Era aquele murmúrio de água salgada que fazia com que, para mim, fosse sempre Verão.
Adorava o Verão. E o Mar. Pedia sempre para ir tomar o pequeno-almoço junto das estrelas-do-mar, mas em vão. A Leonor nunca me satisfazia essa vontade, a pretexto de eu ser muito pequena e poder magoar-me. E dizia mais uma meia dúzia de palavras complicadas daquelas que os adultos dizem às crianças.
Agora é tudo diferente. Agora saio de casa de madrugada, ainda a tempo de ver o nascer-do-sol, e sem dizer nada à Leonor. Quando o dia já está, oficialmente, acordado, como dez mexilhões, um por cada ano de vida. Agora já posso conversar com os caranguejos. Agora já posso nadar com os golfinhos. Agora já posso brincar com as algas. Já posso deitar-me na areia e gritar pelo riso dos peixes. Agora já posso correr atrás das borboletas. Agora já consigo subir às rochas, e ver o mais pormenorizadamente possível o quão linda é a linha que separa o céu do mar, que sempre me fascinou. Agora já consigo fechar os olhos e sem medo, sorrir. Agora conheço aquele areal melhor do que ninguém e por isso digo que ele me pertence.
Ao almoço conto sempre à Leonor quantos caranguejos conheci, quantos golfinhos vi, quantas palavras escrevi na areia e quantas vezes as nuvens mudaram de forma. E ela sorri e dá-me um beijo ternurento na testa, como se a dar-me permissão para voltar a sair.
À tarde as baleias e as sereias dão à costa. Ninguém acredita que eu possa gostar mesmo delas. Dizem que elas são más e querem fazer mal aos humanos. Não quero saber, elas são minhas amigas. A Tita, que é uma sereia ruiva e com uma cauda prateada, até me ensinou as cores, porque sempre que ela quer faz com que apareça um arco-íris. Cada um mais bonito que o anterior. E a baleia Námi quando está contente deita água por um buraquinho que ela tem nas costas. É incrível como os animais do mar conseguem surpreender-me, todos os dias.
De vez em quando lá ganho coragem para pedir à Leonor que me deixe ver o pôr-do-sol com os meus amigos. Umas vezes, quando ela está bem disposta, deixa-me, e quando não deixa mostra um sorriso desaprovador. Quando vou sento-me na areia, bem pertinho da água, e os caranguejos fazem uma rodinha à minha volta. As lapas descolam das rochas e juntam-se a nós, em grande euforia. As sereias ganham pernas como as minhas e fazem-me tranças no cabelo. Os peixinhos reflectem cores brilhantes de dentro para fora de água e os golfinhos, esses, fazem saltos artísticos no ar, lindos. E quando fica escuro, acompanham-me todos a casa. Eu entro pela janela, fecho as cortinas e adormeço, ao som de uma balada que as sereias cantam para mim, docemente.
Nos dias em que fico em casa porque a Leonor não me deixa ir, sento-me à janela, como fazia quando tinha três anos, e acabo por adormecer, com a brisa marítima a bater-me levemente no rosto pousado no granito do parapeito.
Quando acordo, berro pela Leonor, para ela me abrir a janela. Mas quando acordo debruçada na janela, saio logo, sem avisar, o que faz com que o coração fraquinho da Leonor tenha, muitas vezes, problemas.
Hoje acordei com um caranguejo a fazer-me cócegas na mão. Eu estava sentada à janela, com o cabelo a tapar-me os olhos ainda fechados e como a janela estava aberta o pequeno animalzinho decidiu entrar. Era bastante normal isto acontecer-me, mas não quando se trata de um caranguejo meu desconhecido. «Acho que vou chamar-te…Cussi!» E o caranguejo bebé sacudia as pinças, demasiado pequenas, enquanto eu falava.
Peguei nele ao colo e mostrei-o à Leonor, que exprimiu a sua agonia com um sorriso forçado e um olhar ameaçador. Saí. Mostrei aos mexilhões o meu novo amigo e eles bateram palmas. Mostrei-o aos peixinhos coloridos e eles abriram muito os olhos, com medo. E as estrelas-do-mar soltaram um grito de felicidade e pediram-me para fechar os olhos. Todas as vezes que o meu fôlego me permitiu, questionei a razão pela qual elas me pediam tal coisa, mas não consegui obter uma única resposta.
A estrela-mãe prendeu a minha mão e puxou-me. Eu comecei a sentir água nos dedinhos dos pés e perguntei se estava no mar, mais uma vez, sem ter qualquer tipo de resposta. De repente, a estrela fez-me sinal para abrir os olhos e, nessa altura, a água já me dava quase pelo pescoço. Decidi mergulhar para alisar o cabelo e vi o animal mais bonito de toda a minha vida: tinha uma cara engraçada, com olhos muito grandes e esbugalhados, nariz muito comprido e um rabinho muito enroladinho. Fez-me lembrar o desenho duma página dum livro que a Leonor me tinha dado, num dos meus aniversários e por isso associei que aquela criaturazinha fosse um cavalo-marinho.
Era uma festa. A estrela-mãe tinha-me levado a uma festa de bichos do mar, em que eu era a convidada de honra. Havia, ao fundo do corredor de corais, uma grande rocha em forma de cadeirão coberta de conchinhas brancas onde eu podia recostar-me e gozar de todos os momentos daquela festa. Havia flores que mudavam de cor, camarões com lacinhos na cabeça, peixinhos engravatados e luzinhas que piscavam, para dar ambiente. Ainda havia raias sorridentes a oferecer um passeio pelo fundo do mar e os cavalos-marinhos serviam mexilhões e lapas a todos os convidados daquela maravilhosa festa. Havia polvos que cantavam com vozes apaixonantes e, ao mesmo tempo, exibiam os seus tentáculos, enquanto as baleias preparavam os divertimentos.
A festa estava a ser completamente do meu agrado, mas o meu relógio de pulso dizia-me que já era demasiado tarde. Tive que sair do meu cadeirão sem dar qualquer tipo de justificação, porque estava preocupada com o coração da Leonor. Ela ficava sempre muito abalada quando não sabia onde eu estava, quase nem respirava.
O sol já se tinha posto, já não se via o outro lado da ilha e as sereias já estavam na areia, junto das rochas, a brincar com os búzios.
Cheguei a casa e dei com a Leonor demasiado pálida, a andar em círculos à volta da mesa, muito rápido. Tinha o coração a sair-lhe do peito e tremia por todos os lados. Assim que ela me viu entrar pela porta sã e salva, deu um pulo de alívio que até me fez lembrar os golfinhos e de seguida soltou um longo suspiro. Explicou-me que eu não devia chegar a casa tão tarde, disse mais umas poucas palavras das quais eu não entendi o significado e despediu-se com um abraço forte.
A Leonor saiu, provavelmente para ir ao médico e eu fui para o meu quarto, olhar para a lua. Sentia-me culpada pelo estado em que a Leonor estava, e quando olhava para a lua sentia-me melhor. Fiquei bastante preocupada quando me lembrei que no dia seguinte era domingo. «Seria possível que a Leonor não iria poder cumprir o nosso plano de domingos?!» Não. Nem quis pensar numa coisa dessas. Todos os domingos, exclusivamente, eu tomava o pequeno-almoço em casa, com a minha irmã mais velha, Leonor.
Todos os domingos íamos passear as duas vestidas de lilás, porque era a cor favorita da Leonor, para a praia, passear. Era um passeio que parecia não ter fim, mas que nunca nos deixava ofegantes nem com dores nos músculos. Era aos domingos que a Leonor se deitava comigo na areia tão fina e me lia um daqueles livros de receitas, porque ela bem sabia que eu gostava de cozinhar. Chegávamos a casa, à hora do lanche e dirigíamo-nos, instintivamente, para a cozinha. Fazíamos um bolo que comíamos ao jantar, enquanto nos riamos das nossas aventuras.
Não. Definitivamente a minha irmã tinha que se pôr boa para o nosso grande dia. Eu estava em pânico, mas no fundo eu sabia que ela ia melhorar. A lua estava tão cheia que me fazia mesmo acreditar nisso. A certa altura, ouviu-se o barulho de falta de óleo nas dobradiças da porta. Era a Leonor, e vistos que vinha a cantarolar supus que ela já estava, realmente, muito melhor.
Corri até à porta e dei-lhe um abraço de partir os ossos, ao mesmo tempo que lhe prometia que não ia voltar a transtornar-lhe o coração. A Leonor estava, de tal maneira, contente que só foi capaz de mostrar um enorme sorriso e desejar-me uma boa noite.
gosto de abraços de partir os ossos...
ResponderEliminarmuito bom!